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Quando o amor acaba e as dívidas se iniciam: aspectos da separação conjugal

RESUMO Este estudo tem como objetivo identificar as causas que levam a separação de casais da cidade de Santo Antônio da Patrulha. Essa pesquisa foi realizada pelo método qualitativo, utilizando-se uma entrevista semi-estruturada elaborada pela pesquisadora e teve como participantes três homens e três mulheres (ex-casais) que foram casados por um período acima de três anos, e que estão separados há mais de dois anos. Após realizar a pesquisa, foi levantado como principal causa da separação as dívidas do cônjuge do sexo masculino, sendo essa causa apontada como ponto chave para separação de todos os casais entrevistados. Ao final da pesquisa foi solicitado que os entrevistados deixassem sua opinião em relação ao casamento, de modo surpreendente todos disseram ser uma fase boa, aconselhando as pessoas que não passaram pela experiência de casamento experimentar, pois é compensador. Contudo, constatou-se que as pessoas necessitam de uma companhia para compartilhar seus sentimentos, bem como foi possível observar que uma relação a dois não é constituída apenas de bons sentimentos, mas também por um conjunto que envolve fatores socioeconômicos, os quais dão equilíbrio à relação amorosa. Palavras-chave: Casamento. Separação Conjugal. Gênero.

INTRODUÇÃO Percebe-se, hoje em dia, que está aumentando cada vez mais o número de rompimento das relações conjugais. Este trabalho tem por objetivo investigar as causas que levaram os casais da cidade de Santo Antônio da Patrulha a se desunirem. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2007) mostram que os números de separações ocorridos no Brasil, entre os anos de 1993 e 2003, cresceram 44% e 17,8%, respectivamente. Já no período entre 2004 e 2005, as separações judiciais aumentaram 7,4%, mantendo um crescimento gradativo. Ademais, dados do IBGE (2009), especificamente em relação à cidade de Santo Antônio da Patrulha, revelam que em média, por ano, ocorrem 87 casamentos, 20 separações e 15 divórcios. Cabe destacar que os números do IBGE não incluem as uniões e as dissoluções consensuais, mas a partir deles é possível pressupor que, se fossem considerados os dados extra-oficiais, as estatísticas seriam ainda maiores. Um aspecto que deve ser evidenciado também é a repercussão social e familiar que a separação conjugal promove. Conforme Peck e Manocherian (1980/2001), apesar da prevalência do divórcio, os membros da família, em um contexto geral, não estão preparados para o impacto emocional, social e econômico que o mesmo acarreta. Nesse sentido, os autores argumentam que o período transitório da separação conjugal afeta a família em várias gerações, aumentando a complexidade das tarefas desenvolvimentais vivenciadas. Pesquisadores na área de família salientam que o divórcio é um processo complexo, que ocorre de forma diferenciada em cada família (Carneiro-Féres, 2003; Schabbel, 2005). Sobre o tema, Peck e Manocherian (1980/2001) destacam que o período de crise decorrente da separação do casal afeta todos os membros da família, porém, de forma individualizada. Portanto, levando em consideração os fatores envolvidos no processo de separação conjugal, este trabalho pretende investigar os aspectos que estão presentes e que influenciaram na separação conjugal de homens e mulheres, residentes no município, tendo o seguinte problema de pesquisa: Quais os principais aspectos que influenciaram na separação dos casais da cidade de Santo Antônio da Patrulha - RS?

1 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
1.1 Casamento O casamento é condição jurídica para existência de certos direitos e, no sentido social, pode ser entendido como uma manifestação de vontade conjunta, subordinada a inúmeros pré-requisitos e a uma cerimônia civil que, cumpridas certas formalidades, substancia e legitima uma união de pessoas. Conforme o Minidicionário da Língua Portuguesa, do autor Silveira Bueno (1996), casamento é: “Contrato de união ou vínculo entre duas pessoas que institui deveres conjugais = matrimônio”. O casamento implica a construção de uma nova identidade para os cônjuges, de um "eu-conjugal", na definição de Singly (1988), que vai se construindo por meio das interações estabelecidas entre os cônjuges. Willi (1995) define o casamento como uma relação diferente de todas as outras. O autor argumenta que quando duas pessoas decidem que viverão juntas, cada uma terá de se modificar internamente e se reorganizar. De acordo com Schawartz & Kaslow (1995), um relacionamento funcional é caracterizado pelas “normas”, ou seja, definições claras sobre o relacionamento ou pela busca de clareza sobre tais definições, enquanto estas não existirem. Mesmo assim, essas regras devem ser flexíveis, podendo ser discutidas e, por sua vez, modificadas, chegando o casal em um consenso para haver harmonia e entendimento na relação. Já um relacionamento disfuncional é caracterizado pela alarmante rigidez, mesmo quando uma aparência caótica procura encobrir as regras, tornando-se massacrante e inflexível. Assim, fica difícil de manter um relacionamento conjugal de forma sadia, (Schawartz & Kaslow, 1995). O esquema de Bohannon (1973), aponta o divórcio emocional como o primeiro sintoma da insatisfação no relacionamento conjugal, no qual o casal torna-se cada vez mais consciente de seu mútuo desapontamento e insatisfação, percebe que seu relacionamento está se deteriorando e pode começar a desconfiar um do outro. Dessa forma, um dos cônjuges ou ambos, tornam-se desiludidos com relação à viabilidade do casamento e questionam se vale a pena mantê-lo, tornam-se críticos e falam continuamente das características negativas do cônjuge e do casamento. Conforme Anton (1998), os aspectos centrais de um relacionamento são, em grande parte, estabelecidos nos primeiros anos de desenvolvimento, quando se criam os alicerces da personalidade individual, sempre em comum acordo com as regras estabelecidas pelo sistema “unido”. Quando se diz que “quem casa, casa com a família e não apenas com o parceiro” é um fato, pois a família vai sempre junto, tomando parte ativa numa bagagem secreta, da qual ninguém consegue, jamais, se desfazer, nem mesmo quando ocorre um rompimento na relação. O “contrato secreto” que se estabelece, entre os membros, é a forma encontrada pela família, para que o sistema permaneça em homeostase, ou seja, na manutenção do equilíbrio do sistema no qual o casal está inserido. Este é o principal objetivo secreto das alianças de caráter amoroso e sexual, que as pessoas bem intencionadas estabelecem entre si. Suas histórias pregressas exercem grande e inegável influência. Mas, como acontece com todos os demais sistemas vivos, o ser humano normalmente permanece aberto a uma troca de influências, que pode favorecê-lo e levar a mudanças desejáveis. Segundo Ackerman (1986), “a homeostase refere-se ao princípio vital que preserva a integridade e continuidade do organismo humano, a capacidade para manter um funcionamento coordenado, efetivo, sob condições de vida constantemente alteráveis”.
Kohlberg (1969) diz que um relacionamento capaz de sobreviver é, particularmente, aquele que tem um bom equilíbrio entre os elementos simétricos e complementares, no qual os parceiros concordam que deve existir uma comunicação aberta, que mostre claramente como pensam e sentem e o que querem, devendo ouvir de forma atenta e receptiva um ao outro. Logo, é essencial que haja um acordo para que o casal possa negociar as diferenças e aceitar o direito do outro a sua privacidade e individualidade. Bowen (1978) postula que cada pessoa escolhe outra no mesmo nível de individuação da sua família de origem. Portanto, pode-se concluir que as pessoas tendem a escolher alguém de nível de desenvolvimento moral semelhante ao seu. Para Andolfi e Ângelo (1985), os valores e as funções que cada indivíduo traz de suas famílias são transmitidos, assim como as características que devem estar presentes no objeto (parceiro) escolhido. Esses autores também consideram que há um processo de identificação na eleição conjugal. Todo o indivíduo, ao tomar como modelo seus pais, constrói um esquema de “como se relacionar com” um parceiro. A família de origem que descreve como os indivíduos aprendem padrões de interação, expectativas, atitudes, orientações e conceitos considerados funcionais ou não funcionais. Essas aprendizagens apresentam efeitos que podem interferir nos comportamentos e nas escolhas destes indivíduos, em seus relacionamentos íntimos, bem como em outras áreas de suas vidas.

Para Falcke, Wagner e Mosmann (2005), a família de origem tem um papel relevante e exerce influência direta ou indiretamente na construção dos casais. Elas mencionam que alguns estudos têm comprovado que as experiências, vivenciadas nas famílias de origem de cada individuo, estão relacionadas ao ajustamento conjugal estabelecido pelos mesmos e à maturidade psicossocial que atingem na idade adulta.

Quando um homem e uma mulher optam pela união conjugal devem ter consciência da influência que receberão de suas famílias de origem no casamento. Quando duas pessoas se casam, podem não perceber que cada uma delas permanece sendo parte da família que a criou.

Para Pittman (1994), as duas famílias de origem podem ser muito diferentes quanto aos padrões e valores, bem como nas suas expectativas em relação ao casal. Essas famílias não são necessariamente compatíveis uma com a outra. Conforme o mesmo autor, o casal deve ser capaz de colocar seu casamento em primeiro lugar, sem ter de romper com as famílias de origem. Logo, o casal não deve deixar que as duas famílias originais os separem.

Assim sendo, as famílias de origem exercem influências importantes na vida dos indivíduos, tanto por meio das vivências que estes têm durante sua historia de vida, como por meio dos modelos que os pais fornecem de como se relacionar e de como ser casal.

1.2 Separação Conjugal

Carneiro-Féres (2003) aponta que, na sociedade contemporânea, os divórcios aumentaram, porém, não significa o desprezo ao casamento, mas, ao contrário, sua valorização. A autora parte da hipótese que o casamento ainda é uma instituição fundamental para a maioria das pessoas, pois quando o matrimônio não corresponde às expectativas do casal, ocorre o divórcio. Nesses termos, as pessoas se divorciam porque esperam mais de seus casamentos. De acordo com o Mini dicionário da língua portuguesa, separação significa:

ato ou efeito de separar; partição, divisão, desunião. Afastamento, quebra de uma união íntima, ruptura do casamento. Direito separação de bens, regime matrimonial no qual cada um dos cônjuges mantém a propriedade e a gestão de seus bens. Direito Separação de corpos, medida preliminar de anulação de casamento, divórcio ou desquite, concedida judicialmente e que desobriga os cônjuges do dever de coabitação no mesmo domicílio conjugal. Direito Separação de dote, retirada dos direitos do marido sobre os bens dotais. (116) Embora o divórcio possa ser, às vezes, a melhor solução para um casal cujos membros não se considerem capazes de continuar tentando ultrapassar suas dificuldades, ele é sempre vivenciado como uma situação extremamente dolorosa e estressante. A separação provoca nos cônjuges sentimentos de fracasso, impotência e perda, havendo um luto a ser elaborado (Carneiro, 2009). O processo de separação e de divórcio geralmente produz a desagregação da unidade familiar e depende de inúmeros fatores específicos, que mudam de pessoa para pessoa e de relação para relação. De acordo com Trindade (2009), o estudo dos processos interpessoais permite estabelecer algumas etapas comuns, com base nas quais se pode organizar, em ordem seqüencial, os tempos necessários para se atingir um novo estado de equilíbrio, após a separação conjugal. As etapas do processo de separação, de acordo com Kaslow (1995), podem ser classificadas da seguinte forma:

1. Divórcio emotivo – nessa fase o homem ou a mulher que acabou de se separar evita falar sobre o assunto, demonstra mau humor, com choros freqüentes, se encoraja para brigar com o ex-parceiro, ou seja, é um período de desilusão;
2. Divórcio legal – é a fase em que se procura um advogado para mediar a situação do divórcio;
3. Divórcio econômico – processo legal de divórcio e de consideração dos acordos econômicos;
4. Divórcio genitorial – contar aos familiares e amigos, volta ao trabalho, sentimento de poder para tomar decisões;
5. Divórcio da comunidade – fase da finalização do divórcio, procura de novas amizades, empreendimento de novas atividades, estabilização do novo estilo de vida e de rotina diária;
6. Divórcio físico – fase da separação física, desligamento do ex-cônjuge.

Outro ponto importante a se destacar no processo de separação está relacionado a sexualidade do casal. De acordo com a autora Anton (1998), o conceito de sexualidade é amplo e abrangente, profundamente relacionado a idéia de intimidade física e psíquica, bem como a tudo que for marcado pela realização de desejos, alegria e pelo prazer. No passado, as pessoas casavam-se sem considerar sua compatibilidade sexual. Atualmente, o sexo geralmente é intenso no início do relacionamento, mesmo que não seja satisfatório, ou seja, não haja prazer (Pittmam, 1994).

Anton (1998) relata que ainda há casais que não verbalizam nada acerca de seus desejos, sentimentos e de suas fantasias de caráter sexual. A inibição torna, por sua vez, a relação sexual limitada, pois o casal acaba não dialogando sobre o assunto e, dessa forma, não é possível haver uma realização sexual, pois um não tem conhecimento do desejo do outro.

Da mesma forma, a autora Anton (1998), destaca que há casais que agem de forma diferente, sendo caracterizados por uma imaginação farta e pela livre comunicação a respeito dos seus desejos e fantasias sexuais.

Assim, percebe-se que existem vários aspectos que interferem na satisfação conjugal e que podem influenciar no momento da separação, sendo extremamente relevante entender um pouco mais sobre essa realidade, que é o objetivo desta pesquisa.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao encerrar essa pesquisa conclui-se que a causa principal da separação conjugal na cidade de Santo Antônio da Patrulha são as dívidas do cônjuge do sexo masculino. Não entrando em questão influências relacionadas à sexualidade, família de origem, traição, entre outras. De uma forma geral, os participantes têm uma visão positiva em relação ao casamento, considerando-o algo bom e sugerindo a todas as pessoas, que ainda não passaram por essa experiência, que devem experimentar.

Cabe destacar que todos os casais tentaram uma reconciliação, indo ao encontro dos achados teóricos, que dizem que os seres humanos necessitam de uma companhia para compartilhar seus sentimentos. Porém, não tiveram êxito nas suas tentativas, oficializando a separação. A dificuldade encontrada no decorrer da pesquisa se refere ao fato de existir pouca bibliografia referente ao assunto pesquisado, principalmente em relação ao aspecto financeiro na relação conjugal.

De acordo com Cano 2009, foi realizada uma análise da literatura brasileira (nos bancos de dados Index-Psi, Scielo, BSV-PSi e Pepsic, relacionado ao assunto, divórcio, recasamento e transições familiares), sendo encontrados apenas 36 artigos, distribuídos ao longo de 23 anos (1984 a 2007). Portanto, podemos perceber que há uma escassez de estudos nessa área no Brasil, no domínio da psicologia. Vale ressaltar que essa pesquisa é a primeira realizada sobre o assunto divórcio na cidade em questão.

Ao concluir esse trabalho, pode-se certificar que uma relação amorosa não é constituída só de amor e boas intenções com o parceiro. Para haver equilíbrio na relação temos que dar atenção aos fatores socioeconômicos, pois estes são de grande relevância para que haja equilíbrio no relacionamento de um casal.

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